Para entender as notícias internacionais pelo olhar feminino


E aquela parte da descrição do blog "Aqui deixarei dicas de livros para momentos rotineiros, cursos e eventos na área de literatura e escrita conforme minha vida transcorre" se consumou, porque a vida foi transcorrendo até demais. Muitos eventos literários, muito surto de fazer tudo ao mesmo tempo para fingir não ver mudanças iminentes (é meu jeito de procrastinar) e quando finalmente parei, a imunidade foi lá embaixo e uma gripe-derruba-Gabi me lembrou que 31 anos não são 20!

Mas depois de dois dias de cama estou em condições de resgatar o primeiro spoiler do blog e postar duas dicas de leitura para quem, assim como eu, está MUITO PREOCUPADO com o cenário internacional e só tem visto brechas do prenúncio do fim do mundo nos jornais graças aos nossos excelentíssimos dilapidadores do país. Duas pautas são constantes: atentados terroristas e o ping-pong vs Twitter dos poderosos chefinhos da Coreia do Norte e dos EUA. Como tive um tempo em que fui tomada pelo "só há um futuro para o brasileiro médio: concursos públicos", deixei muitas leituras de lado, e quando resolvi resgatar fui direto no "Eu sou Malala", desse jeito, na Livraria Saraiva "oi, tudo bem, quero o "Eu sou Malala", e o simpático atendente me recomendou ao estilo algorítimo do mal "se você gostou de "Eu sou Malala" vai gostar de" o livro "Para poder viver". 

O que ambos tem em comum? Jovens relatando as mudanças passadas pelos seus países, a deturpação da sua cultura pelo extremismo, religioso ou não, e o fato de serem impulsionadas a deixar seu cotidiano para trás por ele simplesmente não existir mais. Cotidiano, rotina, tédio, como você quiser chamar, é algo que sempre me causa temor, por medo de perder as referências de ver o mundo, do ter para onde voltar. Cotidiano para mim é a minha casa, com a minha cama, meu travesseiro, o tempero da minha mãe, são tantas miudezas tão importantes que qualquer filme de apocalipse zumbi sempre me aterrorizou por isso: a perda de tudo. Algum amante da narrativa road trip pode questionar que sair do cotidiano e da zona de conforto é essencial para a vida, mas sair das nossas referências não significa perdê-las, pois o nosso país, o nosso bairro com o modo de se relacionar com o mundo, e as comidas (ah, comidinhas!) estarão lá se quisermos voltar.

Então indico esses dois livros sob esse olhar, da perda do chão. Para vermos as notícias para além do "mais um ataque terrorista" e da iminência de um ataque nuclear. O que vemos no noticiário está longe, literalmente, do impacto na vida das pessoas que vivem a perda da sua cultura e ainda sofrem com o preconceito e abominação de suas origens devido a atos daqueles que tiraram a sua casa com toda a cultura e pertencimento que havia nela. Ler esses livros pelo olhar de Malala Yousafzai e Park Yeon-mi me fez refletir, ainda, como não há evolução para as mulheres, pois o que elas passaram em nada me chocou, porque vejo diariamente no Brasil também. Falta de acesso à educação, mais oportunidades para os homens e a sombra do estupro sempre à volta para somar aos demais perigos de situações extremas.

Fica o primeiro conselho literário: não ligue apenas a TV no horário do noticiário para agir com a síndrome da bipolaridade jornalística: notícia ruim, cara triste; notícia feliz, ufa, que mundo legal! Busque outras referências, vá além. Não é por acaso que há tanto extremismo de opiniões nas comentários de notícias de Facebook. Falta empatia, entender além de uma chamada ao vivo. Quando nos colocamos no lugar do outro, nos tornamos humanos, e a literatura de não ficção está aí para nos ajudar a jamais esquecer disso.

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