Para ver a vida como ela é



O ano é 2015 e a Itália desembarca mais uma vez no Brasil. Não se trata de mais uma novela estilo "Matteo, Giulianna" global ou documentário sobre a chegada de imigrantes italianos no país. Recebemos o cotidiano em Nápoles através de uma escritora que só nos é permitido conhecer pelo seu ofício de escrever. Elena Ferrante, pseudônimo da autora da tetralogia napolitana, que inicia com "A amiga genial" e encerra com "A história da menina perdida", vem imergindo leitores em maratonas de leitura. Porque tal qual o Bis, meus caros, é impossível ler um só.

Experiência de leitura: eu, muito feliz e serelepe por ser apaixonada pela Itália, tive conhecimento da tetralogia apenas em 2016, e logo comprei todos os livros. Pelo menos era o que eu pensava. Acompanhei em 15 dias em torno de 700 páginas falando sobre duas crianças, depois duas adolescentes e até então duas adultas. Não havia lido nada sobre os livros, nenhuma resenha, apenas me interessei por se passar na Itália. E quando fecho o terceiro livro, meu favorito, "História de quem foge e de quem fica" (algo no nome me causa grande tristeza e desconforto) vou abrir o mais fininho, "A filha perdida" e NÃAAAAAAAAAO! Esse não fazia parte da tetralogia, o quarto livro nem havia chegado a terras verdinhas. Mas esse livro fora do roteiro também trazia algo que me encantou: o cotidiano. 

Gosto muito da reflexão que uma professora da pós-graduação repete: a literatura não tem obrigação de exercer qualquer função (social, ética, etc.). Complemento dizendo que de fato não tem, é a apropriação que fazemos do que lemos, desde a escolha do livro até as reflexões, que vai trazer alguma função para nós. Incrível, não? Pois então, toda essa pausa nerd para dizer que a função que a literatura exerce para mim é de compreender o outro, e isso eu encontro em narrativas sobre o cotidiano. Assim busco me aproximar de outras realidades, mesmo que distópicas. É daí que tiro todos os meus exercícios de empatia, esse sentimento-palavra base para a convivência pacífica. E Ferrante traz isso, ela coloca uma personagem, Lenuccia/Lena/Lenu narrando sua vida através da relação entre ela e uma amiga, Lina, sob um ponto de vista e dependendo da sua memória. E vamos acompanhando os fatos, o cotidiano do mínimo da vida privada ao máximo dos fatos políticos e sociais na Itália do período em que elas viveram. É uma Lena já na terceira, melhor (não, sou dessa faixa etária e não gosto desses termos. Ok leitor, está contigo a escolha!) idade narrando seu passado, com todas as lacunas e dúvidas que ocorrem a quem se atreve a rever o que passou com os olhos do presente.

Já encerrei e reli a tetralogia mas informo que meu objetivo aqui não narrar é livro por livro, e sim dar dicas de leitura. Na verdade só não faço do blog um festival de spoiler (o famoso dizer "o mocinho morre no final"). Espero ter conseguido cativar mais leitores de Elena Ferrante para sempre ter um bom papo. Inclusive na data de publicação desse post, 11 de outubro de 2017, estou na página 50 de "Dias de abandono" acompanhando mais uma narradora de cotidiano ferrantesca em Turim. Porque quando a febre Ferrante te acomete não há como deixar nenhum livro para trás.

Dica para uma deliciosa leitura: Antes de tirar um exemplar de Ferrante para ler, se certifique que tem em casa massa, vinho e queijo, porque eu não sei vocês, mas basta mencionar a Itália que eu já encerro a leitura com uma fome de pasta! Mas dependendo da página você pode fechar a leitura do dia com um grande desconforto existencial, aí o vinho pode ajudar bastante. Já o cenário, recomendo praia ou um rio bem caudaloso, para ajudar as reflexões a fluírem como esse roteiro à beira do mar Mediterrâneo. E acredite, não vão faltar reflexões!

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