De frente com Gabi: você não lê literatura POR QUÊ?


Por convenção, domingo à noite é o momento de refletir sobre os compromissos da semana, mesmo quando estamos de férias, afinal, sempre há alguma pendência a se resolver em um estabelecimento que não abre no dia do ócio. E a minha semana me trouxe inquietações que levaram a essa reflexão de fim dominical: como ajudar amigos que dizem "queria muito ler como tu, mas não tenho tempo/não consigo/não gosto"? E após dois meses de blog e de pós-graduação justamente em formação do leitor (e sim, estou devendo um post sobre a pós e ele sairá nessa semana) compartilho algumas reflexões para esses obstáculos à leitura de um livro de literatura (lembrando que há outras categorias, como didáticos, técnicos e outros que não são o foco do blog). Então você não lê por que:
1. Não tem tempo.
Trabalho, faculdade, escola, filhos, bichos, parentes, amigos, colesterol, supermercado, dá para listar aleatoriamente uma infinidade de ocupações do seu tempo. Porém, para quem me diz que ama ler mas não tem tempo, faço uma simples recomendação: tenha sempre um livro de contos, crônicas ou poesia à mão para fazer um intervalo literário. Geralmente, esses livros são curtos, ou seja, leves para carregar, e com histórias que vão durar o tempo de espera de um compromisso ou o deslocamento para algum local (e aqui entra uma grande vantagem de usar transportes além do carro quando você é o motorista). Há períodos na vida de fato truncados que não vão comportar a imersão na tetralogia napolitana (último post sobre Ferrante), por exemplo. Mais de 1500 páginas quando você não poderá ler todos os dias vai gerar frustração com esquecimentos constantes e necessidade de retomar a leitura, tornando um prazer em uma espiral sem fim. Mas sempre dá para fazer de qualquer brecha um intervalo literário.
2. Não consegue se concentrar.
A relação de problemas como déficit de atenção com o mundo virtual em que estamos imersos já foi comprovada por diversos estudos, basta "googlear". Mas não podemos esquecer que a falta de concentração pode ser simplesmente porque o leitor não encontrou seu gênero favorito e o seu tipo de narrativa. Levar um livro para casa simplesmente porque uma conselheira literária por aí (hehe) recomendou pode ser frustrante, até por isso não recomendo livros simplesmente, eu informo o que eu li e como foi a experiência de leitura (por que escolhi aquele livro, por que me marcou) para caso alguém se identifique acrescentar a sua fila literária. Por isso, fica a dica: para a falta de concentração recomendo a escolha livre de um livro com base em gostos pessoais. Joga muito videogame e não consegue baixar a adrenalina depois? Um livro do Stephen King pode ser o que você precisa, porque é possível que uma narrativa carregada de adrenalina o prenda tal qual o jogo. Gosta de novela? Um romance, desde um Sabrina das bancas de revista até algum da Lygia Fagundes Telles. Assiste jornal? Livro de crônicas, o dia a dia pela visão de um escritor. 
Um exemplo da minha geração de adolescência (nascidos em 198...): assistimos ao boom do computador doméstico, passamos pelo acesso à Internet discada e percorremos um caminho longo até chegar à Internet via cabo. Fora os videogames com gráficos cada vez melhores, jogos online, ICQ, Messenger, Orkut e por aí vai. Mas mesmo em meio a tanta "distração" essa geração leu, e muito. Harry Potter levou essa turma conectada a desligar o computador para ler de 300 até 800 páginas, e maratona passou a ter outro sentido nada fitness: horas paradas com leitura imersa em Hogwarts. E se escreveu muito também com as páginas de fanfics abarrotadas de criadores de Hogwarts paralelas. E o que tinha em Harry Potter? Jovens contemporâneos a nós mas vivendo uma realidade mágica, um prato cheio para mentes criativas sendo despertadas para as mil possibilidades da Internet. Foi uma geração que encontrou o seu tipo de literatura (ou vice-versa, afinal J.K.Rolling poderia escrever uma novela brasileira andando conforme o gosto do público). 
3. Não gosta de ler.
E eis o motivo da foto da postagem. É muito provável que esse desamor pela leitura seja culpa de José de Alencar. E não por culpa do autor, mas do professor imerso em um programa falho de ensino que previa o autor entre as leituras obrigatórias de clássicos da literatura brasileira. E qual a probabilidade da imposição do mesmo livro agradar a todos os alunos no principal local de formação de leitores (a escola)? Eu fui uma aluna que adorou ler O Guarani no colégio, mas fui a única na turma e não consegui apreciar as outras obras por serem submetidas a um estudo cirúrgico para o vestibular.
Para esses amigos, costumava dizer que eles ainda não tinham "encontrado o livro certo a sua mesa de cabeceira bamba". Mas depois da aula da pós-graduação essa semana, compartilho uma dica já repetida aqui: escolha um livro. Qualquer livro, e nisso recomendo que releia o item 2 desse post. 
Mas também não vou reduzir o problema apenas à escola, afinal a nossa sociedade ajuda a repelir leitores. Já ouvi que ler literatura "é perda de tempo, melhor esperar o filme sair". As pessoas tem supervalorizado a imagem em detrimento do que o processo de leitura traz. Quando se pensa em leitura como recompensa sobretudo na vida financeira se esconde o principal benefício do hábito de ler: a independência intelectual. Nós não paramos de ler. A nossa visão de mundo, nosso ser e agir na sociedade são permeados pela nossa capacidade de ler o entorno, apropriar-se dessa leitura e refletir a partir disso. E a leitura de livros de literatura eleva cada vez mais nossa capacidade de ser de fato e não nos tornarmos seres manipulados.
Na aula da pós aprendi sobre a diferença entre o leitor competente e o leitor literário. Quando falamos no número inaceitável de analfabetos funcionais no país, estamos tratando da falta de capacidade de leituras necessárias para conviver, como saber ler e executar um simples manual, preencher um formulário, ler com algum discernimento um contrato. Mas para chegar a essa competência de interpretação ser um leitor literário, pelo menos no período de formação na educação formal, é um fator importante.
Chega de bullying literário!
Mesmo assim haverá aquele amigo que é um leitor competente que abandonou a literatura, mas ainda lê outros gêneros textuais e os compreende bem. É independente na sociedade. E ESTÁ TUDO BEM! Gritei com formatação aqui para deixar um ponto bem claro nesse post: não há que se julgar quem não lê livros de literatura,  mas para quem quer ler literatura e traz essas questões eu estou aqui com esse postagem para ajudar a retomar o universo literário. Também não há que se alimentar qualquer preconceito com a leitura de literatura. Não é um gênero, autor ou tamanho que vai definir se um livro é bom ou ruim. É uma ESCOLHA do leitor. Nada de aderir ao bullying literário, ok (estou vendo alguém resmungando "Paulo Coelho blablabla whiskas sachê")! Em um domingo à noite, período de refletir sobre inquietações vou com a cabeça leve para o travesseiro certa de que entrarei no céu depois desse post enorme, finalizado às 23h45min na véspera de uma segunda-feira para ajudar leitores do meu país.

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