Para não ficar só com os seus pensamentos

A capa mais literária que já vi

O país está em crise. O mundo está à beira de uma guerra que pode ser deflagrada ou abortada com 140 caracteres. O passado em si já foi bastante caótico e ainda vivemos uma sombra com quatro números: 1964. Parece que vocês engoliram um mixer e ele foi parar ligado no seu cérebro? Pois é, estou me sentindo assim, e em uma noite do curso "Escritores Gaúchos em Ação" do Festival de Inverno de Porto Alegre (ali por julho) conheci alguém que pega essa realidade maluca que se desenha justamente no auge da crise dos meus 30 anos e coloca em palavras, contos, romances, histórias. Antes de ler qualquer livro, conheci a Moema Vilela falando do seu processo criativo, com os olhos brilhando pelo lançamento de seu terceiro livro, Guernica, batendo a porta, e de repente eu sabia, como acredito que todos ali presentes, que tinha muita sorte de ser contemporânea dela e poder ouvir ela falando de suas obras.


Experiências de leitura: Uma semana depois desse evento fui ao lançamento do livro Guernica na minha livraria favorita de Porto Alegre, a Baleia que fica na Aldeia (e adoro que Graciliano Ramos rime com um local cultural incrível). Em ambos os eventos estava também a escritora gaúcha Júlia Dantas, que no primeiro compunha a mesa feminina do evento e agora estava ali para mediar os caminhos entre Moema, Guernica e plateia. Saí de lá com todos os livros já publicados da Moema com dedicatórias super motivadoras para alguém que resolveu se dedicar ao universo literário de vez.
Então a minha experiência de leitura me trouxe algo novo: ver o privilégio que é poder interagir com um autor. Infelizmente não houve nenhum avanço tecnológico que me permita bater um papo com Hemingway, Machadão, Scliar e seu basquete na ACM, Quintaninha do cuore. Mas que incrível é poder ler os livros da Moema depois de ter ouvido o que ela quis dizer naquelas linhas, e já fica a deixa para um dos livros.
Um buquê de páginas da Moema Vilela para o seu domingo

"Quis dizer" traz elementos que considero muito importante o leitor conhecer sobre a Moema: Os seus livros tem história fora do que está dentro da capa. Explico, é que a produção dos livros mostra todo o apuro com a produção, a diagramação, os parceiros, enfim, toda a cadeia produtiva. Então percorrer as páginas de "Quis Dizer" é pensar sobre aquela capa de emaranhados de linha de crochê, passando pelo formato de cada texto, até parar longamente na página final e de repente querer ler tudo de novo. Eu já li três vezes e deixo no terceiro degrau da minha estante-escada que é dedicada a escritores gaúchos ou que eu conheci aqui (Moema é mato-grossense) bem na frente, para quando entrarem no quarto e falarem "que capa tri" eu poder alongar os dedos, perspassar a língua pelos lábios como Anthonny Kieds em "Give it Way" (grande Red Hot Chili Peppers) e dizer: deixa eu explicar esse livro pra ti!
Já a leitura de Guernica trouxe muito mais daquele papo com o autor que citei porque nos eventos que fui a Moema estava falando sobre seu lançamento. O nome não é por acaso já que temos muitas possibilidades de leitura tal qual o quadro de Picasso. Você pode ler na ordem, de trás pra frente, pelas beiradas, e uma história vai ser contada. Você encontrará mulheres narradoras, distopia, passado, presente, guerra, palavras e fotografias. Aliás, o fazer fotográfico aqui traz muito o que refletir e se enlaça com o título. Já li duas vezes porque os livros da Moema são assim, densos em conteúdo mas não em páginas, então eu sempre paro e acabo voltando para mais uma leitura pois gosto como surgem novos enredos através do que li. E o livro não para por aí, lá no www.moemavilela.com tem a sua versão expandida (vou deixar o link aqui só para facilitar, mas deem um pulo na página da Moema que é ótima para amantes da escrita  - https://guernicaexpandida.tumblr.com/).
Por fim vamos ao primeiro livro, "Ter Saudade era Bom" me deixou uma impressão já pelo título, lembro que segui para casa depois daquele evento pensando nele. Porque "era" bom no passado? Vocês já não estão se perguntando isso? Foi percorrendo cada conto, aleatoriamente porque é o que eu mais gosto de fazer em livros de contos, ir abrindo a página e ver o que a sorte do dia me reservou, e já é previsível dizer que li mais de uma vez alguns e estou com ele aqui na cabeceira.
""Um milagre, de que outro modo chamá-lo?" Como disse a milagrosa soberana (Wislawa). O sol que se põe às seis e trinta e três." Moema e suas capturas do pôr-do-sol

Dica para um enredar melhor entre os teus pensamentos e os da Moema: leia com vista para o mar, rio ou procure sincronizar com o pôr-do-sol. Já li muito na beira-mar (muito, muiiito e já tive livro atingido por bola de frescobol, lambido por cachorro, levantando voo com bola de futebol e por aí vai)  mas foram livros que poderiam ser lidos em outros lugares sem prejuízo para a experiência de leitura. Mas ler Moema com o farfalhar das ondas e páginas, repousar o olhar no infinito azul (ou seja lá a cor do seu litoral, o meu até vermelho fica às vezes, algas arianas) e pensar WTF e reler um trecho de novo e sentir um "mas baaaah". No pôr-do-sol você pode sentir suas reflexões brincarem na sua cabeça como os recortes de luzes que o céu faz, e se não tiver um belo sol poente na sua frente vai no Instagram da Moema (@la.double.vie) e capta um dali. A leitura vai bem com um chimarrão, quentão, biscoito de polvilho e um bolinho quente feito com amor por alguém, mesmo você, para afagar todos os rebuliços de cada página.

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