Stranger things sobre dois livros: por que não ouvimos falar deles?



Há leitores para todos os gêneros, e para aqueles apaixonados por suspense e terror o mês de outubro é "O" mês. Não é da nossa cultura o Halloween, mas é o feriado que melhor abarca a turma do obscuro em todo o mundo e eu particularmente adoro! Mas não foi o 31 de outubro a data mais aguardada desse ano, e sim o dia 27, quando estreou a segunda temporada de Stranger Things, seriado que reúne a geração que viveu e a que gostaria de ter vivido a década de 80 com todas as grandes mudanças que ela abarcou. Terminada a maratona ontem (sim, leitores e seriados-killer também são esportistas, mas do cérebro), fiquei pensando na minha deadline (prazo final no jargão jornalístico) para o último post de outubro. E foi então que "stranger things" me surgiram em torno de dois livros.

"Vamos por partes" O ESTRIPADOR, Jack.

Mistério 1 - REDRUM (ou Por que mataram a continuação de O Iluminado)

Afinal, se o livro "O Iluminado" consagrou Stephen King como o autor de suspense e terror da nossa geração, seguido pelo filme com a atuação ícone de Jack Nicholson, por que quando eu digo "e a continuação, Doutor Sono, é sensasional" recebo essa resposta de amigos atônitos: mas existe uma continuação? 

Follow the ring: Eu fiz uma busca e encontrei resenhas da época do lançamento da obra unânimes quanto à magnitude do livro, alguns críticos inclusive dizendo que foi a melhor obra do King (e eu concordo mesmo tendo como medo maior IT), e...Há leitores de King brasileiros que não conhecem! Nenhuma nova edição anunciada ou promoção da sua editora no Brasil, a Suma de Livros (teria "sumido" com o livro? Elementar, meus caros), que está a mil com divulgação de outras obras do autor aproveitando o mote do "mês do terror". Se fãs de Stranger Things não estavam aguentando um ano pela segunda temporada, imagina a geração que cresceu sem conseguir andar em corredores receber uma continuação de um livro ícone 30 anos depois, e esse livro cair no silêncio mesmo sendo incrível. Isso sim é uma coisa estranha!

Experiência de leitura: eu li Doutor Sono em março de 2014, mas acredito que tenha chegado em meados de 2013 por aqui. Foram 3 dias sem conseguir fechar o livro até terminar suas 472 páginas (porque King é prolixo e quem sou eu para reclamar com meus posts "dobra-quarteirão)! Foi o melhor livro dele que já li.

E como que passam outubros e outubros com pessoas se programando para ver O Iluminado no dia 31 mas não conhecem Doutor Sono? Um breve resumo para fazer você se sentir culpado por nao conhecer o livro ou querer fazer algum ritual de magia contra quem não o divulga apropriadamente no país: O pequeno Dan Torrance cresceu em meio aos traumas que o faziam até escrever de trás para frente quando era criança e agora é um funcionário de uma casa de repouso. Usa sua "iluminação" para ajudar idosos na passagem para o Nosso Lar (para os espíritas como eu) com a ajuda de um gato que sente o faro de quem está para ir. Por isso Dan passa a ser conhecido como Doutor Sono e nem me venha com mimimi de que é spoiler porque tudo isso está na primeira orelha do livro! Dan toma conhecimento de que há uma menina, Abra Stone, que tem um baita dom e que assim como ele, ela também é percebida por forças do mal. E assim se encaminha um enredo cativante que envolve todas as fórmulas que fazem as pessoas gostarem de seriados como Stranger Things: criança, relação de lealdade e proteção, paranormalidade, gente do mau contra gente do bem, etc.

Mas o livro tem um ponto que faz toda a diferença: a relação de Dan com os Alcoólicos Anônimos (AA) que mostra o quanto instituições de apoio como essa são importantes na nossa sociedade. 
Mesmo assim eu continuo não vendo nada sobre o livro atualmente... Mas a Conselheira Literária está aqui para terminar com essa "stranger thing" sobre Doutor Sono lhe dando uma simples dica: se já leu O Iluminado e gostou, leia Doutor Sono.

Mistério 2 - Quiças, quiças, quiças. Uma milonga para Claudia Piñeiro

Em uma viagem a Buenos Aires fui conhecer a livraria que é considerada uma das mais belas do mundo, a Ateneo. Folheadinha aqui, folheadinha ali vi uma capa de livro que me interessou por ter uma Betty Boop desenhada sobre um jornal e o título equivalente à pronúncia "Betibu", de Claudia Piñeiro. Quando olho a primeira orelha bate o espanto: primeira-dama da literatura policial argentina, vencedor do Prêmio Clarín com José Saramago entre os jurados, se Alfred Hitchcock fosse mulher...Opa! Mas que livro é esse? Saí de lá sem levar o livro pois estava em espanhol e imaginei que encontraria fácil no Brasil. Ha-ha-ha.

Experiência de leitura: após deixar meu nome em vários "avise-me quando estiver disponível" em sites das megastores brasileiras, por total coincidência do destino encontrei um único exemplar, jogado em um estoque, em uma Livraria Saraiva em Belém (sendo que não havia nenhum disponível no site, como disse acima). E também havia outro da autora, Tua, esse com vários exemplares expostos naquele corredor em que tem 50 tons do que você quiser, um absurdo porque o livro sequer se tratava de "romance sensual" se me permitem dar um nome a esse gênero, desconfio que jogaram a autora ali só por ser mulher. 

Li os dois em um ritmo alucinado pois não conseguia fechá-los e foi bem difícil ir trabalhar naqueles dias de ressaca literária. Betibu é um thriller policial que coloca a mulher no centro, mas não uma mulher idealizada. Poderia ser a sua colega de baia de trabalho, ou da sua mãe, divorciada, com filhos mas, principalmente, COM VIDA.

Eu adoro a personagem Bridget Jones criada por Hellen Fielding, mas confesso que há muito me cansava ver mulheres de 30-40 anos sendo retratadas como cômicas, como "não-estou-preocupada-com-marido-mas-se-aparecer-um-pretendente), vide Melancia, Sushi e todos esses livros com nome de comida contemporâneos (inclusive a autora, Marian Keynes, está se dedicando à culinária, quase premonitório!). Ou repleta de traumas como as personagens de filmes policiais que vemos: com carreira mas só porque estava tentando fugir de um trauma como Angelina Jolie em O Colecionador de Ossos.

Acho que a grande sacada da Claudia Piñeiro é trazer uma personagem tal qual lemos em thrillers semelhantes quando o personagem principal é um homem. Ela tem problemas, tem mas como todos têm e isso não define seus rumos no livro. E toda a trama de suspense policial se desenvolve de forma intensa, imprevisível, como um bom livro do gênero é, com a IMENSA FELICIDADE da protagonista ser uma mulher sem estereótipos em volta como adjetivos maçantes sufocando um nome. 

Dica para uma leitura de tirar o fôlego: experimente ler esses livros sozinho em casa, à noite, com apenas uma luminária acesa. Realmente cria uma atmosfera mas mantive minha segurança mantendo minha cadela sob os meus pés.

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