Para viver um cotidiano distante como se cidadão local fosse


Desde que assumi minha segunda vida, mas colocando os óculos ao invés de tirar como Clark Kent a fim de poder usar o poder da leitura, tenho insistido em dois pontos: sempre é possível ler e se conhece melhor um lugar através da literatura. Aí eis que o a 63ª Feira do Livro de Porto Alegre atende o que venho jogando ao universo e traz como tema "Tempo para ler, todo mundo tem". Esse mote fica super possível se você se apega a um livro de contos. Foi assim, em meio a um período totalmente sem tempo para respirar, que comecei a ler Contos Holandeses e, para quem estava afogada na rotina, consegui ainda fazer uma baita viagem.

Experiência de leitura: Desde que vi uma postagem sobre o livro no blog Desanuviamentos, da Nine Copetti (@ninecopetti e ninecopetti.com. Se recomendo esses perfis? Ôooo meus amigos se recomendo!Mudou minha relação com as cidades), fiquei curiosa para ler principalmente pela constatação de que havia um tradutor brasileiro de holandês! A experiência mais próxima que tive com línguas dos países nórdicos europeus foi através dos nomes das personagens do escritor norueguês Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia e de tantos outros, inclusive de literatura infantil que são meus favoritos dele (aguardem resenha de A Biblioteca Mágica de Bibi Bokken). Sempre admirei o ofício da tradução, pois não consiste apenas em trocar palavras, envolve respirar outra cultura para entender as escolhas de palavras feitas pelo autor. Alguém já imaginou a dublagem para o inglês do filme "O auto da compadecida"? Estava refletindo sobre isso com minha mãe ainda ontem. 

Então o organizador de Contos Holandeses, Daniel Dago, se tornou logo uma pessoa admirável, coladinho com Mário Quintana no meu ranking de "pessoas que fecham meus olhos (ou seja, me fazem sorrir)".
E conforme fui avançando nas páginas do livro, a admiração aumentou ainda mais porque o seu trabalho foi além da tradução. Está na escolha dos escritores, pela primeira vez publicados no Brasil, e na capacidade de cada conto escolhido te fazer conhecer a Holanda através de tantas nuances. É o sinônimo de pessoa chata que se resumiu ao nome de uma personagem, a presença de uma estética do frio (pegando emprestado o termo de Vitor Ramil para os Estados do Sul do nosso país), o pioneirismo em assuntos que são a recém debatidos em alguns locais e em outros ainda são tabu. Ao fechar Contos Holandeses, compreendi porque a Holanda e seus vizinhos têm índices altíssimos de qualidade de vida. Infelizmente, a nossa cultura faz vermos qualidade como sinônimo de quantidade, enquanto a abundância não estar em ter, e sim no acesso. Ao ler esses autores que viveram em diferentes momentos do desenvolvimento da Holanda, me senti imersa e ao mesmo tempo impulsionada por inovação, por querer uma participação mais plena nas questões que envolvem os locais em que vivo (sou meio nômade). 

Outra reflexão que o livro me trouxe foge das palavras grifadas nas páginas. A obra foi publicada pela Editora Zouk e traz uma experiência a parte. A edição do livro é tão acurada, com capa dura e folha de guarda (quantos livros tem hoje?) em vermelho que me fez pensar que a chegada desses autores no país merece um red carpet. Foi um livro que me fez ver porque a versão física é imbatível e não há Kindle à prova d'água que leia as páginas para você que consiga superar. Também me fez prestar atenção na curadoria que uma editora faz. Penso que editoras como a Zouk são o equivalente ao Netflix e ao Youtube para a TV aberta e à cabo, porque ousam trazer obras que não são puramente comerciais e nos dão acesso a uma diversidade incrível. Afinal, publicar obras de Dan Brown e Augusto Cury, que darão retorno financeiro certo, é fácil, mas trazer obras de autores desconhecidos (só por aqui porque na Holanda eles são cânones) como os presentes em Contos Holandeses é para quem ama literatura. Por isso editoras como a Zouk e lugares como a Livraria Baleia moram no meu coração e já ganharam até hortinhas próprias nele.

Fazendo um paralelo bem forçado, senti ao ler Contos Holandeses o espírito da criatividade e inovação dos Países Baixos do mesmo modo que senti na Cidade Baixa (bairro boêmio e querido aqui da nossa capital) quando saí da minha vida bucólica na Zona Sul de Porto Alegre e passei a frequentar essas bandas próximas da faculdade.

Dica para uma leitura teletransportadora: vá lendo Contos Holandeses na sua rotina. Leve para o ônibus (você vai de carro? Que pena, perde tanto da cidade e ainda a polui), para a consulta ao médico, para um café, e siga lendo no seu ritmo. Acho que essa leitura enquanto se vive irá te trazer inconscientemente vontade de mudar o que não gosta na sua rotina pelo ar revigorante e inovador que as páginas vão soprando. Além de fazer você abrir a mente e imaginar outras coisas além de tulipas quando pensar na Holanda. 

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